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AUTOCONHECIMENTO

Você está vivendo ou apenas repetindo?

Como sair do automático e começar a se conhecer

Mulher refletindo junto à janela sobre escolhas e padrões de vida

Talvez boa parte da sua vida esteja sendo decidida antes mesmo de você perceber que fez uma escolha.

Você acorda e pega o celular.

Responde “tudo bem” quando não está.

Aceita algo que gostaria de recusar.

Adia uma conversa desconfortável.

Diz “sim” para evitar conflito.

Volta para casa cansada, promete que amanhã será diferente e, quando percebe, está novamente fazendo as mesmas coisas, sentindo as mesmas emoções e entrando nas mesmas situações.

Não porque tenha escolhido conscientemente viver assim.

Mas porque o ser humano também aprende a viver por repetição.

E algumas repetições se tornam tão familiares que recebem outros nomes:

Mas existe uma pergunta mais interessante:

Quanto daquilo que você chama de personalidade é realmente escolha e quanto é adaptação?

Essa pergunta é um bom começo para o autoconhecimento.

Viver no automático não significa viver sem pensar

Quando falamos em “piloto automático”, podemos imaginar alguém completamente desligado da própria vida.

Não é assim.

Uma pessoa pode trabalhar, cuidar da família, pagar contas, tomar decisões, viajar, estudar, conversar e cumprir suas responsabilidades enquanto permanece pouco consciente dos mecanismos que orientam muitas de suas escolhas.

É possível ser extremamente funcional e, ainda assim, conhecer pouco a si mesmo.

Isso acontece porque nosso cérebro não precisa analisar cada pequena decisão como se fosse a primeira vez.

Hábitos e respostas aprendidas economizam esforço mental. Isso é necessário.

O problema começa quando o automático deixa de organizar apenas tarefas simples e passa a governar questões emocionais importantes.

Você não pensa:

“Tenho medo de ser rejeitada, portanto vou evitar colocar um limite.”

Você simplesmente diz:

“Tudo bem, eu faço.”

Não pensa:

“Estou tentando controlar esta situação porque a incerteza me deixa insegura.”

Talvez diga:

“Prefiro fazer tudo sozinha.”

Não pensa:

“Aprendi que demonstrar vulnerabilidade pode ser perigoso.”

Diz:

“Não gosto de depender de ninguém.”

A explicação consciente nem sempre revela toda a engrenagem que está funcionando por baixo.

É como dirigir por um caminho conhecido.

Você chega ao destino quase sem perceber quantas curvas fez.

Na vida emocional, porém, existe um detalhe importante:

Nem todo caminho conhecido leva para onde você deseja continuar indo.

O familiar nem sempre é saudável

Essa é uma das partes mais desconfortáveis do autoconhecimento.

Nós não repetimos apenas aquilo que nos faz bem.

Também podemos repetir aquilo que conhecemos.

Uma pessoa que aprendeu muito cedo a evitar conflitos pode se tornar um adulto extremamente compreensivo, mas incapaz de dizer “não”.

Quem recebeu reconhecimento principalmente pelo desempenho pode começar a acreditar que descansar é sinônimo de preguiça.

Alguém acostumado a cuidar das necessidades dos outros pode sentir culpa quando finalmente escolhe a si mesmo.

Quem viveu relações marcadas por imprevisibilidade pode, mais tarde, confundir intensidade com profundidade.

Isso não significa que toda dificuldade adulta tenha uma explicação simples na infância. Seria uma redução grosseira da complexidade humana.

Nossa maneira de existir é construída por muitos elementos: história, temperamento, experiências, cultura, vínculos, perdas, escolhas, contexto social e aquilo que aprendemos ao longo do caminho.

Autoconhecimento exige justamente abandonar explicações fáceis.

Não se trata de encontrar um culpado pelo que você sente.

Trata-se de investigar como você funciona.

Antes de mudar, observe

Existe uma pressa contemporânea para melhorar.

Parece que estamos permanentemente em reforma.

Mas tentar modificar um comportamento sem compreender sua função pode ser como arrancar a luz do painel do carro porque ela está incomodando.

A luz apagou.

O problema continua lá.

Por isso, antes da mudança, existe uma etapa menos glamourosa e muito mais importante: observar.

Essas perguntas não servem para transformar a vida numa investigação obsessiva.

Servem para criar espaço entre sentir e reagir.

E nesse pequeno espaço começa a nascer a possibilidade de escolha.

Autoconhecimento não é pensar sobre si o tempo inteiro

Existe uma diferença importante entre autoconhecimento e ruminação.

Pensar incessantemente sobre o próprio sofrimento não significa necessariamente compreendê-lo.

Às vezes, significa apenas circular em torno dele.

Autoconhecimento envolve curiosidade.

Ruminação costuma procurar culpados, certezas ou respostas impossíveis.

A reflexão saudável pergunta:

O que está acontecendo comigo?

A ruminação tende a perguntar:

Por que eu sou assim?

Uma abre investigação.

A outra pode facilmente se transformar em julgamento.

Conhecer-se não deveria significar colocar a própria personalidade em um tribunal.

Deveria significar aprender a observá-la com suficiente honestidade para reconhecer tanto os recursos quanto as contradições.

Cinco perguntas para descobrir onde você está vivendo no automático

Faça este exercício sem tentar produzir respostas bonitas.

Responda aquilo que vier primeiro.

1. O que eu continuo aceitando, embora já saiba que me faz mal?

Pode ser uma relação, uma rotina, uma responsabilidade, uma maneira de falar consigo ou até uma expectativa impossível.

2. Em quais situações digo “sim” querendo dizer “não”?

Observe principalmente o medo existente por trás desse “sim”.

Medo de decepcionar? De ser rejeitada? De parecer egoísta? De criar conflito?

3. Qual comportamento meu mais se repete quando estou insegura?

Você se cala? Controla? Agrada? Se afasta? Ataca? Procura confirmação? Trabalha ainda mais?

Cada pessoa desenvolve estratégias diferentes para recuperar uma sensação de segurança.

4. O que eu critico em mim sem nunca tentar compreender?

Talvez exista uma parte sua que você tenta eliminar há anos quando deveria primeiro descobrir o que ela está tentando fazer por você.

5. Se ninguém ficasse decepcionado comigo, o que eu faria diferente?

Essa pergunta costuma tocar lugares interessantes.

Porque algumas escolhas que parecem livres foram construídas ao redor do medo da reação dos outros.

A pausa entre o impulso e a escolha

Imagine uma estação de trem.

Durante anos, você pega a mesma linha.

Mesmo horário.

Mesma plataforma.

Mesmo destino.

Um dia, em vez de entrar automaticamente no vagão, você permanece alguns minutos na estação e olha o mapa inteiro.

Descobre que existem outras linhas.

Outras conexões.

Outros destinos.

Você ainda pode escolher o trem de sempre.

A diferença é que, dessa vez, você sabe que está escolhendo.

É isso que o autoconhecimento pode começar a produzir.

Ele não transforma você em alguém que nunca erra, nunca sofre ou sempre toma decisões perfeitas.

Também não elimina impulsos, medos ou contradições.

Ele amplia o mapa.

Perceber o padrão ainda não é mudá-lo.

Mas é muito difícil transformar aquilo que permanece invisível.

Talvez o primeiro passo não seja mudar

Talvez você não precise terminar este texto prometendo uma nova versão de si mesma na segunda-feira.

Pode começar de maneira muito mais simples.

Observe-se durante os próximos dias.

Preste atenção nos momentos em que o corpo fica tenso.

Nos “sins” que deixam um gosto de “não”.

Nas desculpas que você repete.

Nas situações que despertam reações desproporcionais.

Nas escolhas que faz para evitar desaprovação.

Nas vezes em que diz “eu sou assim”.

E, quando perceber alguma coisa, não corra imediatamente para corrigir.

Pergunte:

O que existe aqui que eu ainda não compreendi?

Talvez essa seja uma das formas mais maduras de iniciar uma mudança.

Não declarando guerra contra quem você é.

Mas tornando-se suficientemente consciente para decidir o que deseja preservar, o que precisa compreender e o que já não deseja continuar repetindo.

Porque sair do automático não significa controlar cada passo da vida.

Significa apenas começar a estar presente quando a sua própria vida estiver sendo escolhida.

E algumas mudanças importantes começam exatamente assim:

No instante em que aquilo que era automático finalmente se torna visível.
Psicóloga Norika Jo — CRP 06/125490
Psicólogo Irineu Jo — CRP 06/125488

Este conteúdo tem caráter psicoeducativo e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico individualizado.